O que significa ter um filhote morto na barriga de uma cadela?

A presença de um ou mais fetos mortos retidos no útero de uma cadela gestante é uma condição médica grave, conhecida tecnicamente como retenção fetal ou aborto retido. Essa situação pode ocorrer em qualquer fase da gestação, mas é particularmente perigosa nas fases finais ou após o parto ter iniciado. Diferentemente de um aborto espontâneo completo, onde o corpo da fêmea expulsa todos os fetos e membranas, na retenção, os fetos permanecem no útero, decompondo-se e representando um risco iminente de infecção generalizada (sepse) e toxemia para a mãe. A compreensão dos sinais que indicam essa complicação é fundamental para que tutores e veterinários possam intervir rapidamente, salvaguardando a vida da cadela.

  • Fetos mortos retidos no útero da cadela causam risco de infecção grave.
  • A condição pode surgir em qualquer fase da gestação, sendo mais crítica no final.
  • Identificação precoce dos sintomas é vital para intervenção veterinária.
  • A saúde da mãe é o foco principal em casos de retenção fetal.

Entender a gravidade dessa condição é o primeiro passo para agir. Não se trata apenas de uma perda gestacional, mas de uma emergência que exige atenção veterinária imediata. A demora na identificação e tratamento pode levar a consequências irreversíveis para a saúde reprodutiva e geral da fêmea. Portanto, monitorar atentamente a cadela, especialmente nos períodos de maior risco, torna-se uma responsabilidade inegociável para qualquer tutor.

Fases da Gestação e Riscos Associados

A gestação canina dura em média 63 dias, divididos em três trimestres. O risco de retenção fetal pode variar em cada fase. No primeiro trimestre, a reabsorção fetal ou um aborto inicial podem ocorrer sem sinais óbvios. No entanto, é no terceiro trimestre, quando os fetos estão mais desenvolvidos e o parto se aproxima, que a retenção de um feto morto se torna mais perigosa. O corpo da cadela pode tentar iniciar o trabalho de parto, mas a presença de fetos inviáveis ou mumificados pode impedir a progressão normal, levando a distocia (dificuldade no parto) e aumentando a pressão sobre o sistema materno. A incapacidade de expelir os fetos mortos desencadeia uma cascata de reações inflamatórias e infecciosas.

O Papel do Veterinário na Detecção e Manejo

O diagnóstico preciso e o manejo adequado são exclusivamente de responsabilidade do médico veterinário. Não é possível para um tutor diagnosticar essa condição com certeza apenas pelos sintomas observados em casa. Exames como ultrassonografia, radiografia e, em alguns casos, exames de sangue são essenciais para confirmar a presença de fetos mortos, avaliar a condição da mãe e determinar o melhor curso de ação. A intervenção veterinária precoce pode significar a diferença entre a recuperação da cadela e complicações fatais.

Principais sintomas de cadela com filhote morto na barriga

Reconhecer os sinais que podem indicar a presença de um filhote morto no útero é crucial para buscar ajuda veterinária a tempo. Embora alguns sintomas possam ser sutis ou confundidos com o final da gestação normal, outros indicam uma emergência clara. A observação atenta do comportamento e do estado físico da cadela é o primeiro passo para identificar um problema. Ignorar esses sinais pode levar a um agravamento rápido do quadro clínico da fêmea, colocando sua vida em risco iminente.

Alterações no Comportamento e Bem-Estar Geral

Uma cadela que está com um ou mais filhotes mortos na barriga pode apresentar mudanças drásticas em seu comportamento. Ela pode se tornar apática, relutante em se mover, perder o apetite ou demonstrar sinais de dor e desconforto, como gemidos ou inquietação excessiva. Em contraste, algumas fêmeas podem parecer mais calmas do que o esperado para o final da gestação, sem o instinto de preparar o ninho ou buscar um local seguro. A letargia prolongada e a falta de interesse em interagir com o ambiente são bandeiras vermelhas importantes.

Sinais de Toxemia e Infecção

A decomposição dos fetos retidos libera toxinas no organismo da mãe, levando a um quadro de toxemia, que é o envenenamento do sangue. Os sintomas podem incluir febre, vômitos persistentes, diarreia, fraqueza extrema e gengivas pálidas ou amareladas. Se a infecção se espalhar pelo corpo, pode evoluir para sepse, uma condição com risco de vida. A dificuldade respiratória, pulso fraco e rápido, e a incapacidade de se levantar são sinais de que o quadro está se deteriorando rapidamente.

Descarga Vaginal Anormal

Uma das pistas mais alarmantes é a presença de secreção vaginal incomum. Isso pode variar de um corrimento escuro, com odor fétido, a uma descarga sanguinolenta persistente ou com material purulento (pus). Enquanto uma pequena quantidade de secreção clara ou levemente rosada pode ser normal no final da gestação ou no início do trabalho de parto, qualquer descarga escura, com mau cheiro, ou que contenha restos de tecidos ou sangue em excesso é um sinal de alerta máximo. O mau cheiro, em particular, pode indicar decomposição fetal.

Ausência de Movimentação Fetal ou Sinais de Parto Interrompido

Se você já sentiu os movimentos fetais e estes cessaram subitamente, pode ser um indicativo de que os filhotes faleceram. Da mesma forma, se a cadela começou o trabalho de parto, mas não conseguiu expelir todos os filhotes ou parou de ter contrações sem ter completado o parto, a retenção fetal é uma forte possibilidade. Sinais de trabalho de parto que não progridem, como contrações fracas e intermitentes sem a expulsão de um filhote por um longo período, são uma emergência obstétrica.

Outros Sintomas a Observar

A cadela pode apresentar tremores, pupilas dilatadas, dificuldade em respirar, aumento da frequência cardíaca, e pode tentar vomitar sem sucesso. A desidratação também é comum devido à falta de ingestão de líquidos e aos vômitos. É importante notar que a gravidade e a manifestação dos sintomas podem variar dependendo de quantos fetos foram retidos, há quanto tempo estão retidos e do estado de saúde geral da cadela. Em alguns casos, especialmente se a retenção ocorreu no início da gestação e os fetos foram reabsorvidos, os sintomas podem ser mínimos ou ausentes.

Causas comuns de retenção fetal em cadelas

A retenção de filhotes mortos no útero de uma cadela não é um evento isolado, mas sim o resultado de uma série de fatores que podem comprometer o desenvolvimento fetal, o processo de gestação ou o trabalho de parto. Compreender essas causas é essencial não apenas para o manejo de um caso específico, mas também para a prevenção em futuras gestações. A complexidade do sistema reprodutivo canino significa que diversas variáveis podem culminar em uma gravidez complicada.

Infecções Durante a Gestação

Infecções bacterianas, virais ou fúngicas são causas primárias de problemas gestacionais. Doenças como Brucelose canina, Leptospirose ou mesmo infecções uterinas (endometrite) podem levar à morte fetal intrauterina. Se o corpo da cadela não conseguir expelir o feto morto em tempo hábil, ele pode permanecer retido. Infecções podem afetar o suprimento sanguíneo para os fetos ou causar inflamação direta, resultando em óbito fetal. A prevenção através de vacinação e controle de parasitas é uma medida fundamental para mitigar esses riscos.

Problemas Hormonais e Metabólicos

Desequilíbrios hormonais na cadela, como deficiência de progesterona (essencial para manter a gestação), podem levar à interrupção do desenvolvimento fetal e subsequente morte. Condições metabólicas maternas, como diabetes ou problemas na tireoide, também podem afetar negativamente a saúde dos fetos. Uma nutrição inadequada durante a gestação, com deficiência de vitaminas e minerais essenciais, pode comprometer o desenvolvimento fetal e aumentar a fragilidade dos embriões e fetos.

Anormalidades Genéticas ou de Desenvolvimento Fetal

Assim como em outras espécies, fetos caninos podem apresentar malformações congênitas ou anomalias genéticas que inviabilizam seu desenvolvimento. Essas falhas, muitas vezes, levam à morte fetal intrauterina. Se o feto não se desenvolve adequadamente, o corpo da mãe pode não reconhecê-lo como viável para expulsão imediata, permitindo sua retenção. Fatores ambientais teratogênicos (que causam malformações) durante a gestação também podem ser a causa.

Trauma Físico e Estresse Excessivo

Qualquer trauma físico significativo na região abdominal da cadela durante a gestação, como quedas, acidentes ou brigas, pode causar lesões internas que levem à morte fetal e à sua retenção. Da mesma forma, estresse crônico ou severo, provocado por mudanças ambientais drásticas, maus-tratos ou excesso de atividade física, pode afetar os níveis hormonais e o bem-estar da cadela, impactando negativamente a gestação. É importante garantir um ambiente calmo e seguro para a fêmea prenhe.

Complicações no Trabalho de Parto (Distocia)

A distocia, ou dificuldade no parto, é uma causa frequente de retenção fetal. Isso pode ocorrer por várias razões: fetos excessivamente grandes para a pelve materna, posicionamento incorreto dos fetos, fraqueza nas contrações uterinas (hipotonia ou inércia uterina), ou obstruções no canal de parto. Se a cadela entra em trabalho de parto e não consegue expelir todos os fetos, aqueles que permanecem no útero podem morrer e se tornar retidos, especialmente se o parto foi interrompido ou se a tentativa de expulsão falhou.

Problemas Uterinos da Mãe

Condições preexistentes ou desenvolvidas no útero da cadela podem dificultar a gestação e o parto. Fibroides uterinos, tumores ou um útero debilitado por gestações anteriores ou infecções crônicas podem comprometer o desenvolvimento fetal e a capacidade de contração uterina. A própria estrutura do útero pode, em casos raros, apresentar anormalidades que impeçam a expulsão correta dos fetos. A avaliação veterinária completa antes da cobertura e durante a gestação pode ajudar a identificar potenciais riscos.

Diagnóstico veterinário: Confirmando a retenção fetal

Ao suspeitar que sua cadela possa estar com um filhote morto retido, a ação mais importante é procurar um médico veterinário imediatamente. O diagnóstico preciso é fundamental, pois o manejo incorreto pode ser mais prejudicial do que a própria condição. O veterinário empregará uma combinação de histórico clínico, exame físico e ferramentas de diagnóstico por imagem para confirmar a presença de fetos mortos e avaliar a saúde geral da cadela.

Histórico Clínico e Exame Físico Inicial

O veterinário começará coletando um histórico detalhado da gestação, incluindo a data da última cio, a confirmação da gestação, quaisquer sinais anormais observados, o comportamento recente da cadela e o histórico reprodutivo. O exame físico incluirá a palpação abdominal para avaliar o tamanho e a consistência do útero, a auscultação cardíaca para verificar o estado cardiovascular da fêmea, e a avaliação das mucosas (gengivas) e temperatura corporal para detectar sinais de infecção ou toxemia. A inspeção da genitália externa para verificar a presença de secreções anormais é parte crucial deste exame.

Ultrassonografia Gestacional

A ultrassonografia é uma ferramenta poderosa e frequentemente a primeira escolha para o diagnóstico de retenção fetal. Ela permite visualizar o interior do útero em tempo real. O veterinário poderá identificar a presença de fetos, determinar se estão vivos ou mortos (pela ausência de batimentos cardíacos e sinais de decomposição), e avaliar o estado das membranas fetais e do líquido amniótico. A ultrassonografia também ajuda a estimar a idade dos fetos retidos e a identificar possíveis sinais de infecção uterina, como acúmulo de fluidos.

Radiografia (Raio-X)

A radiografia é particularmente útil nas fases mais avançadas da gestação, quando os fetos já desenvolveram esqueleto ósseo visível. Ela permite contar o número de fetos e confirmar se todos foram expelidos após o início do trabalho de parto. Em casos de retenção fetal, o raio-x pode mostrar fetos mumificados (desidratados e preservados) ou em decomposição, que podem apresentar alterações na sua forma ou densidade óssea. É também uma forma eficaz de detectar anomalias de tamanho ou posicionamento fetal que possam ter causado a distocia.

Exames de Sangue

Exames de sangue completos (hemograma e perfil bioquímico) são essenciais para avaliar o estado sistêmico da cadela. Eles podem revelar sinais de infecção (aumento de leucócitos), anemia (devido a hemorragias ou toxemia), disfunção renal ou hepática (indicando toxemia), e desequilíbrios eletrolíticos. A contagem de células sanguíneas e a análise bioquímica fornecem informações vitais sobre a gravidade da condição e o prognóstico da cadela, orientando o tratamento de suporte.

Avaliação Hormonal (Opcional)

Em alguns casos, a avaliação dos níveis hormonais, como progesterona, pode ser considerada, embora geralmente seja mais relevante para o manejo de ameaças de aborto em gestações em curso. Para diagnóstico de retenção fetal, o foco recai mais sobre os sinais clínicos e os exames de imagem que confirmam a presença de fetos mortos e a resposta do organismo materno a essa situação. No entanto, em casos de suspeita de distocia por inércia uterina, a avaliação hormonal pode ser parte de um protocolo de tratamento.

Tratamento e manejo: Salvando a vida da cadela

Uma vez diagnosticada a retenção fetal, o tratamento visa remover os fetos e membranas, controlar a infecção, estabilizar a cadela e prevenir complicações futuras. A abordagem terapêutica é determinada pela condição clínica da cadela, a fase da gestação, o estado dos fetos retidos e a presença de infecção. Em todos os casos, a intervenção veterinária especializada é indispensável.

Estabilização Clínica da Cadela

Se a cadela estiver em estado grave, com sinais de toxemia ou sepse, o primeiro passo é a estabilização. Isso envolve fluidoterapia intravenosa para combater a desidratação e manter a pressão sanguínea, administração de antibióticos de amplo espectro para controlar a infecção bacteriana, e medicamentos para suporte cardiovascular e renal, se necessário. O manejo da dor também é uma prioridade, assegurando o conforto da fêmea durante o processo.

Remoção dos Fetos Mortos

Existem duas abordagens principais para a remoção dos fetos mortos:

1. Tratamento Médico (com medicamentos): Em alguns casos específicos, e dependendo da fase da gestação e do estado dos fetos (se não estão muito decompostos), o veterinário pode optar por induzir o parto ou o aborto medicamentoso. Isso é feito com o uso de hormônios (como prostaglandina F2α) que estimulam contrações uterinas e a expulsão dos fetos e membranas. Este método é mais eficaz quando há múltiplos fetos mortos e o corpo da cadela responde bem à medicação. É crucial que a cadela seja monitorada de perto para garantir que todos os restos fetais sejam expelidos.

2. Tratamento Cirúrgico (Ovariohisterectomia): Na maioria dos casos de retenção fetal, especialmente quando há sinais de infecção severa, fetos mumificados ou em decomposição avançada, a remoção cirúrgica do útero (ovariohisterectomia) é a opção mais segura e eficaz. A cirurgia remove o útero contendo os fetos mortos, eliminando a fonte da infecção e toxemia. Este procedimento também esteriliza a cadela, prevenindo futuras gestações que poderiam ser complicadas por problemas semelhantes. É o método mais recomendado para garantir a sobrevivência da mãe, pois remove o foco do problema de forma definitiva.

Cuidados Pós-Tratamento

Após o tratamento, seja médico ou cirúrgico, a cadela necessitará de cuidados intensivos. Isso inclui medicação contínua (antibióticos, analgésicos), monitoramento de sinais vitais, controle de feridas cirúrgicas (se aplicável) e uma dieta balanceada para auxiliar na recuperação. O veterinário agendará consultas de acompanhamento para verificar a cicatrização, remover suturas (se houver) e assegurar que não haja complicações tardias. A recuperação pode levar algumas semanas, e o suporte do tutor é vital nesse período.

Considerações sobre o Futuro Reprodutivo

Se a cadela passou por uma ovariohisterectomia, ela não poderá mais ter filhotes. Se o tratamento foi medicamentoso e o útero foi preservado, o veterinário avaliará a possibilidade de futuras gestações. No entanto, a causa subjacente da retenção fetal deve ser investigada e tratada para minimizar riscos. Em muitos casos, especialmente se a causa foi uma infecção grave ou um problema genético, o veterinário pode recomendar a esterilização para o bem-estar a longo prazo da cadela.

Prevenção e Cuidados Durante a Gestação

Embora nem todas as complicações gestacionais possam ser prevenidas, adotar medidas proativas durante a gestação e no período que antecede a concepção pode reduzir significativamente o risco de problemas como a retenção fetal. A saúde reprodutiva da cadela deve ser uma prioridade, com atenção especial à nutrição, cuidados veterinários e ambiente.

Acompanhamento Veterinário Pré-Concepção e Durante a Gestação

Antes de planejar uma ninhada, é fundamental que a cadela passe por um check-up completo. O veterinário avaliará seu estado geral de saúde, histórico reprodutivo e realizará exames para detectar possíveis doenças infecciosas, como Brucelose, que podem ser transmitidas e causar abortos ou morte fetal. A vacinação e a desparasitação devem estar em dia. Durante a gestação, consultas regulares com o veterinário são essenciais para monitorar o desenvolvimento dos filhotes e a saúde da mãe. O veterinário poderá solicitar exames de imagem em momentos chave para avaliar o progresso da gestação e identificar precocemente qualquer anormalidade.

Nutrição Adequada e Suplementação

Uma dieta balanceada e de alta qualidade é crucial para suportar a gestação. A cadela prenhe necessita de um aporte calórico maior e de nutrientes específicos, como ácido fólico, cálcio, fósforo e proteínas, para o desenvolvimento saudável dos fetos e a manutenção de sua própria saúde. O veterinário poderá recomendar uma ração específica para cadelas gestantes ou suplementos nutricionais, ajustados às necessidades individuais da fêmea. Evite mudanças bruscas na dieta e ofereça alimentos seguros e adequados.

Ambiente Seguro e Livre de Estresse

Proporcionar um ambiente calmo, seguro e livre de estresse é vital para a cadela gestante. Evite mudanças drásticas no ambiente, barulhos excessivos ou situações que possam assustá-la. Certifique-se de que ela tenha um local confortável e tranquilo para descansar e, posteriormente, para dar à luz. A limitação de contato com animais desconhecidos ou doentes durante a gestação também ajuda a prevenir a exposição a patógenos perigosos.

Evitar Traumas e Exercícios Excessivos

Durante a gestação, especialmente nas fases finais, evite atividades que possam expor a cadela a riscos de trauma físico. Quedas, saltos de grandes alturas ou brincadeiras muito bruscas podem ser prejudiciais. O nível de exercício deve ser ajustado às necessidades da cadela prenhe; geralmente, exercícios moderados são benéficos, mas atividades extenuantes ou que envolvam risco de impacto devem ser evitadas. O veterinário poderá orientar sobre o tipo e a intensidade de atividade física adequada.

Monitoramento de Sinais de Alerta

Esteja atento a quaisquer alterações no comportamento ou estado físico da cadela durante a gestação. Sinais como apatia, perda de apetite, secreções vaginais anormais, febre, vômitos persistentes ou qualquer indício de dor devem ser comunicados imediatamente ao veterinário. A detecção precoce de qualquer sintoma incomum pode ser a chave para prevenir complicações graves, incluindo a retenção fetal.

Considerações sobre Raças e Predisposições

Algumas raças de cães podem ter predisposição a certas complicações reprodutivas. Por exemplo, raças braquicefálicas (com focinho achatado) podem ter maior dificuldade respiratória, o que pode afetar a gestação e o parto. Raças com pelve estreita também podem ter maior incidência de distocia. Ao planejar uma ninhada, especialmente com raças conhecidas por tais características, um acompanhamento veterinário ainda mais rigoroso é recomendado, com possíveis intervenções planejadas, como cesarianas preventivas.

O impacto psicológico na cadela após a perda

A perda de filhotes, seja durante a gestação ou logo após o parto, é um evento traumático não apenas para os tutores, mas também para a cadela. Os instintos maternos são fortes, e a ausência de filhotes após um período de gestação e preparação pode gerar confusão, ansiedade e comportamentos de luto. Reconhecer e apoiar a cadela nesse período é fundamental para sua recuperação emocional e bem-estar.

Instintos Maternos e Confusão

Mesmo que os filhotes tenham falecido antes do nascimento, a cadela ainda pode apresentar comportamentos maternos intensos. Ela pode tentar cuidar de um ninho vazio, procurar os filhotes que não existem, ou demonstrar agitação e vocalizações que indicam desconforto e busca. Essa confusão surge da ativação de seus instintos reprodutivos e maternais, que não encontram sua expressão natural. O corpo da cadela também pode continuar a produzir leite, o que intensifica essa sensação de dever não cumprido.

Sinais de Estresse e Luto na Cadela

Os sinais de estresse e luto em cadelas podem se manifestar de diversas formas. Elas podem apresentar apatia, perda de apetite, recusa em brincar ou interagir, aumento da necessidade de atenção e contato físico, ou, inversamente, isolamento. Alguns cães podem desenvolver comportamentos compulsivos, como lamber excessivamente as patas ou o corpo. Vocalizações frequentes, como choramingos ou uivos, também podem ser uma forma de expressar sofrimento. O padrão de sono pode ser alterado, com mais sonolência ou insônia.

Como Apoiar Sua Cadela no Processo de Luto

O apoio do tutor é essencial para ajudar a cadela a superar a perda. Mantenha a rotina o máximo possível, mas seja paciente e compreensivo com as mudanças comportamenticas. Ofereça atenção extra, carinho e oportunidades de interação suave. Evite forçá-la a atividades que ela não deseja. Passeios mais longos e atividades de enriquecimento mental, como jogos de faro ou brinquedos interativos, podem ajudar a desviar o foco e promover o bem-estar.

Gerenciando a Lactação Induzida

Se a cadela estiver produzindo leite, isso pode intensificar a confusão e o desconforto. O veterinário pode prescrever medicamentos para suprimir a lactação, como a cabergolina, que ajudam a reduzir a produção de leite e a aliviar a pressão nas mamas. É importante também evitar a estimulação das mamas, pois isso pode incentivar a produção de leite. Manter as mamas limpas e secas é geralmente recomendado, a menos que o veterinário indique o contrário.

Quando Procurar Ajuda Profissional para o Luto

Se os sinais de sofrimento da cadela forem intensos, prolongados ou se houver comportamentos autodestrutivos, é aconselhável buscar orientação de um veterinário comportamentalista ou de um especialista em comportamento canino. Eles podem oferecer estratégias comportamentais específicas e, em alguns casos, considerar o uso de medicamentos ansiolíticos para ajudar a cadela a lidar com a ansiedade e o estresse. O objetivo é ajudá-la a recuperar seu equilíbrio emocional e qualidade de vida.

Implicações em Larga Escala: Saúde Pública e Ética Veterinária

A retenção fetal em cadelas, embora seja um problema individual de saúde animal, possui implicações que se estendem para além do cuidado de um único animal. Na perspectiva da saúde pública, o controle de doenças reprodutivas em animais de companhia pode prevenir a zoonose e a disseminação de patógenos. Do ponto de vista da ética veterinária, cada caso exige um julgamento cuidadoso para otimizar o bem-estar animal e a tomada de decisões informadas.

Prevenção de Zoonoses Reprodutivas

Doenças como a Brucelose canina, que pode causar abortos e retenção fetal, também podem ser transmitidas a humanos, representando um risco de zoonose. A detecção e o manejo adequados de casos de aborto e retenção fetal em caninos contribuem para a saúde pública ao impedir a disseminação desses agentes patogênicos na população animal e, consequentemente, reduzir o risco de transmissão para pessoas. A educação de tutores sobre a importância da saúde reprodutiva de seus animais é um componente chave na prevenção.

Responsabilidade Ética na Tomada de Decisão

Quando uma cadela apresenta retenção fetal, a decisão sobre o melhor curso de tratamento recai sobre o veterinário, em consulta com o tutor. A ética profissional exige que o bem-estar da cadela seja a prioridade máxima. Isso implica em oferecer todas as opções de tratamento viáveis, explicar os riscos e benefícios de cada uma, e tomar decisões que minimizem o sofrimento e maximizem as chances de recuperação e qualidade de vida para o animal. A esterilização, quando indicada, é frequentemente a escolha mais ética para evitar futuras complicações.

Impacto Econômico e Social

A gestão de complicações reprodutivas em animais de companhia pode ter um impacto econômico significativo, tanto para os tutores quanto para a indústria veterinária. O tratamento de quadros graves como a retenção fetal geralmente envolve custos elevados com consultas, exames diagnósticos, medicamentos e cirurgias. Em um contexto mais amplo, a saúde reprodutiva dos animais de companhia também está ligada a questões sociais, como o controle populacional de animais de rua e a prevenção de doenças que podem afetar a saúde comunitária.

O Papel da Pesquisa e Educação Continuada

O avanço na compreensão e no tratamento de condições como a retenção fetal depende de pesquisa contínua em reprodução animal e saúde reprodutiva. A educação continuada para médicos veterinários é fundamental para mantê-los atualizados sobre as melhores práticas diagnósticas e terapêuticas. Compartilhar conhecimento e experiências entre profissionais e com tutores de animais contribui para a elevação dos padrões de cuidado e para a melhoria da saúde reprodutiva em cães globalmente.